quinta-feira, 3 de setembro de 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
Ensaio sobre a cegueira
Esse post é para pensarmos a respeito do que estamos discutindo nas nossas aulas de Processos de Cuidar até aqui. Um texto muito interessante, reflexivo, e além de tudo bonito, publicado pela Folha de São Paulo. O autor é psicanalista e colunista da Folha.
Ensaio sobre a Cegueira
(por Contardo Calligaris, publicado em 18/9/2008 na Folha de São Paulo)
GOSTO DOS romances e dos filmes apocalípticos, ou seja, das histórias em que algum tipo de fim do mundo (guerra nuclear, invasão extraterrestre, epidemia etc.) nos força a encarar uma versão laica e íntima do Juízo Final. Nessa versão, Deus não avalia nosso passado, mas, enquanto o mundo desaba, nosso desempenho mostra quem somos realmente. No desamparo, quando o tecido social se esfarela e as normas perdem força e valor, conhecemos, enfim, nosso estofo "verdadeiro". Somos capazes do melhor ou do pior: o apocalipse nos testa e nos revela.
O primeiro romance apocalíptico (de 1826) talvez tenha sido "O Último Homem" (ed. Landmark), de Mary Shelley, que é também a autora de "Frankenstein". De fato, as duas obras são animadas pelo mesmo sonho: uma criatura radicalmente nova pode ser fabricada no bricabraque de um necrotério ou nascer das cinzas da civilização. Em ambos os casos, ela será sem história, sem ascendência, sem comunidade e, portanto, penosamente livre - para o bem ou para o mal.
No romance de Mary Shelley, aliás, a causa da catástrofe é uma epidemia, como na "Peste", de Camus, e como no "Ensaio sobre a Cegueira", de Saramago, que é agora levado para o cinema por Fernando Meirelles.
A obra de Meirelles é fiel ao livro que a inspira, mas, para contar a mesma história, consegue inventar uma eloqüência própria, sutil e forte. Por exemplo, o filme banha numa luz esbranquiçada e difusa que não é apenas (como foi dito e repetido) uma evocação da cegueira branca que aflige a humanidade: é a atmosfera ordinária de nosso universo desbotado, em que a trivialidade do cotidiano desvanece os contrastes - até que as sombras e os brilhos sejam revelados na "hora do vamos ver", que acontece, paradoxalmente, porque todos (ou quase todos) perdem a visão.
Depois de assistir ao filme, li algumas das críticas que ele recebeu em Cannes. A nota de Manohla Dargis, no "New York Times" de 16 de maio, por exemplo, é paradoxal: Dargis acusa o filme de ser uma Alegoria com "A" maiúscula, em que, aos personagens, faltaria espessura. Certo, os personagens de "Ensaio sobre a Cegueira" quase não têm história prévia, assim como a cidade em que os fatos acontecem (uma mistura de São Paulo com Toronto) é uma cidade moderna qualquer, cujas particularidades não contam. Essa, justamente, é a beleza do gênero: o surgimento quase abstrato de uma situação extrema, em que se trata de escolher e agir a partir de nada. O passado, o lugar não contam: os personagens são definidos por suas escolhas aqui e agora.
Dargis também se queixa da oposição que lhe parece excessiva, no filme, entre "os bons" e "os ruins", ou seja, entre os que, na cegueira, descobrem e aprimoram sua humanidade e os que a perdem. É uma queixa curiosa, pois, em quase todas as narrativas apocalípticas, a contraposição de retidão e bestialidade é o sinal de uma liberdade quase absoluta, angustiante: o fim do mundo é um bívio sem leis, sem flechas, sem compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança. A oposição caricata dos bons e dos ruins expressa a incerteza do espectador, do leitor e do autor: "Você, se, por uma misteriosa epidemia, o mundo ficar cego, se o reino da lei acabar e começar a idade da luta pela sobrevivência, de que lado estará? Do lado dos que inventarão novas formas de abusos ou dos que descobrirão novas formas de respeito e de vida comum? Uma vez perdida a visão, o que você enxergará no seu vizinho: mais uma mulher para estuprar e um otário para explorar ou um irmão, perdido que nem você?"
No "Ensaio sobre a Cegueira" (de Meirelles e de Saramago), diferente do que acontece em muitas narrativas apocalípticas, a heroína é uma mulher, e as mulheres são as depositárias da esperança; elas saem engrandecidas pelas provas da situação extrema.
São elas que, para o bem de todos, entregam-se aos estupradores, aviltando não elas mesmas mas os que as violentam, com uma coragem que salienta a covardia dos maridos ciumentos ou zelosos de sua "honra". São elas que sabem cuidar de uma criança ou matar quando é preciso. São elas que reinventam a amizade (em cenas memoráveis: a das mulheres lavando o corpo da companheira espancada à morte e a das mulheres no chuveiro).
Aviso, caso, um dia, a gente tenha que recomeçar tudo do zero: em geral, as mulheres sabem, melhor do que os homens, o que é essencial na vida.
Ensaio sobre a Cegueira
(por Contardo Calligaris, publicado em 18/9/2008 na Folha de São Paulo)
Somos capazes de tudo: o apocalipse nos testa e nos revela a nós mesmos e ao mundo.
GOSTO DOS romances e dos filmes apocalípticos, ou seja, das histórias em que algum tipo de fim do mundo (guerra nuclear, invasão extraterrestre, epidemia etc.) nos força a encarar uma versão laica e íntima do Juízo Final. Nessa versão, Deus não avalia nosso passado, mas, enquanto o mundo desaba, nosso desempenho mostra quem somos realmente. No desamparo, quando o tecido social se esfarela e as normas perdem força e valor, conhecemos, enfim, nosso estofo "verdadeiro". Somos capazes do melhor ou do pior: o apocalipse nos testa e nos revela.
O primeiro romance apocalíptico (de 1826) talvez tenha sido "O Último Homem" (ed. Landmark), de Mary Shelley, que é também a autora de "Frankenstein". De fato, as duas obras são animadas pelo mesmo sonho: uma criatura radicalmente nova pode ser fabricada no bricabraque de um necrotério ou nascer das cinzas da civilização. Em ambos os casos, ela será sem história, sem ascendência, sem comunidade e, portanto, penosamente livre - para o bem ou para o mal.
No romance de Mary Shelley, aliás, a causa da catástrofe é uma epidemia, como na "Peste", de Camus, e como no "Ensaio sobre a Cegueira", de Saramago, que é agora levado para o cinema por Fernando Meirelles.
A obra de Meirelles é fiel ao livro que a inspira, mas, para contar a mesma história, consegue inventar uma eloqüência própria, sutil e forte. Por exemplo, o filme banha numa luz esbranquiçada e difusa que não é apenas (como foi dito e repetido) uma evocação da cegueira branca que aflige a humanidade: é a atmosfera ordinária de nosso universo desbotado, em que a trivialidade do cotidiano desvanece os contrastes - até que as sombras e os brilhos sejam revelados na "hora do vamos ver", que acontece, paradoxalmente, porque todos (ou quase todos) perdem a visão.
Depois de assistir ao filme, li algumas das críticas que ele recebeu em Cannes. A nota de Manohla Dargis, no "New York Times" de 16 de maio, por exemplo, é paradoxal: Dargis acusa o filme de ser uma Alegoria com "A" maiúscula, em que, aos personagens, faltaria espessura. Certo, os personagens de "Ensaio sobre a Cegueira" quase não têm história prévia, assim como a cidade em que os fatos acontecem (uma mistura de São Paulo com Toronto) é uma cidade moderna qualquer, cujas particularidades não contam. Essa, justamente, é a beleza do gênero: o surgimento quase abstrato de uma situação extrema, em que se trata de escolher e agir a partir de nada. O passado, o lugar não contam: os personagens são definidos por suas escolhas aqui e agora.
Dargis também se queixa da oposição que lhe parece excessiva, no filme, entre "os bons" e "os ruins", ou seja, entre os que, na cegueira, descobrem e aprimoram sua humanidade e os que a perdem. É uma queixa curiosa, pois, em quase todas as narrativas apocalípticas, a contraposição de retidão e bestialidade é o sinal de uma liberdade quase absoluta, angustiante: o fim do mundo é um bívio sem leis, sem flechas, sem compromissos, onde qualquer um pode escolher o horror ou a esperança. A oposição caricata dos bons e dos ruins expressa a incerteza do espectador, do leitor e do autor: "Você, se, por uma misteriosa epidemia, o mundo ficar cego, se o reino da lei acabar e começar a idade da luta pela sobrevivência, de que lado estará? Do lado dos que inventarão novas formas de abusos ou dos que descobrirão novas formas de respeito e de vida comum? Uma vez perdida a visão, o que você enxergará no seu vizinho: mais uma mulher para estuprar e um otário para explorar ou um irmão, perdido que nem você?"
No "Ensaio sobre a Cegueira" (de Meirelles e de Saramago), diferente do que acontece em muitas narrativas apocalípticas, a heroína é uma mulher, e as mulheres são as depositárias da esperança; elas saem engrandecidas pelas provas da situação extrema.
São elas que, para o bem de todos, entregam-se aos estupradores, aviltando não elas mesmas mas os que as violentam, com uma coragem que salienta a covardia dos maridos ciumentos ou zelosos de sua "honra". São elas que sabem cuidar de uma criança ou matar quando é preciso. São elas que reinventam a amizade (em cenas memoráveis: a das mulheres lavando o corpo da companheira espancada à morte e a das mulheres no chuveiro).
Aviso, caso, um dia, a gente tenha que recomeçar tudo do zero: em geral, as mulheres sabem, melhor do que os homens, o que é essencial na vida.
Experiências empíricas
Urso usa escada para escapar após ficar preso em pista de skate
Incidente aconteceu em Snowmass, no estado do Colorado.
Escada foi colocada após o animal ter sido encontrado preso.
Do G1, em São Paulo: http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1281450-6091,00.html
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Gripe A

Não contávamos com essa parada, no entanto, existem momentos em que o real invade com tudo as nossas estruturas imaginárias.
Contávamos que nas próximas semanas continuaríamos cumprindo os planos de ensino e assistindo às aulas normalmente. Planejamos um calendário, os professores prepararam as aulas, se organizaram. Os alunos prepararam-se para um novo semestre.
Ainda assim, do mesmo modo que não temos a garantia que um farol vermelho vai parar o carro que cruza a rua, não temos garantia de que não seremos atingidos pela pandemia. Por isso, paramos por esses dias, até que a situação se acalme um pouco.
E o que podemos fazer em casa nesse período? Que tal trabalhar nos materiais já passados pelos professores? Que tal escrever as nossas impressões sobre as disciplinas, sobre os conteúdos? Que tal procurar entender de que forma a nossa profissão se insere numa situação como essa?
Vamos tentar responder às seguintes questões: O que é uma pandemia e como os profissionais da saúde podem agir em um momento como esse?
Assim, quem sabe, a gente sai da abstração literária e compreende melhor a prática. Pesquisem, leiam, perguntem! Mandem e-mails aos professores! Estamos de molho, mas não estamos de férias. Pensem nisso!
Contávamos que nas próximas semanas continuaríamos cumprindo os planos de ensino e assistindo às aulas normalmente. Planejamos um calendário, os professores prepararam as aulas, se organizaram. Os alunos prepararam-se para um novo semestre.
Ainda assim, do mesmo modo que não temos a garantia que um farol vermelho vai parar o carro que cruza a rua, não temos garantia de que não seremos atingidos pela pandemia. Por isso, paramos por esses dias, até que a situação se acalme um pouco.
E o que podemos fazer em casa nesse período? Que tal trabalhar nos materiais já passados pelos professores? Que tal escrever as nossas impressões sobre as disciplinas, sobre os conteúdos? Que tal procurar entender de que forma a nossa profissão se insere numa situação como essa?
Vamos tentar responder às seguintes questões: O que é uma pandemia e como os profissionais da saúde podem agir em um momento como esse?
Assim, quem sabe, a gente sai da abstração literária e compreende melhor a prática. Pesquisem, leiam, perguntem! Mandem e-mails aos professores! Estamos de molho, mas não estamos de férias. Pensem nisso!
domingo, 19 de julho de 2009
Conhecer, confrontar,emancipar: cuidar
Cuidar vai além de exercer uma profissão,utilizar técnicas e instrumentos. O aprendizado técnico-instrumental a Faculdade proporciona, a formação continuada aprimora, a prática diária sustenta.
O Processo de Cuidar é uma disciplina idealizada para ir além. Além do saber fazer que cada profissão engloba. É uma disciplina ofertada aos acadêmicos dos cursos da saúde: Biomedicina, Educação Física, Enfermagem, Nutrição e Psicologia. O que eles têm em comum? Todos visam a atingir algum aspecto da vida humana, essa vida tão sensível e tão mutável, que depende de tantos fatores para ser bem sucedida física, social e psicologicamente.
O objetivo principal desta disciplina pode ser traduzido em uma só palavra: Autonomia.
O profissional da área da saúde tem como público alvo sujeitos, que podem ser submetidos às práticas e a um saber inerente às profissões, o que pode fazer pensar um profissional despreparado que ele sabe mais sobre a vida do ser humano que o procura. Que grande mentira! Quando o saber cega o dever da prática é hora de revisitar conceitos e valores que permeiam a vida e o meio.
Tratar um paciente como ser humano vai além de tratá-lo com carinho, de dedicar seu tempo, seu esforço a ele. Tratar um paciente como ser humano é implicá-lo em seu problema, situá-lo frente ao que atinge a vida dele, e, pelo cuidado, ajudá-lo a conhecer, confrontar e emancipar-se da situação de subjugado. O triedro emancipatório do cuidar, proposto por Maria Raquel Gomes Maia Pires fala disso: Conhecer para cuidar melhor, Cuidar para confrontar, Cuidar para emancipar.
Vamos, então, partir do primeiro ponto: Conhecer para cuidar melhor.
Conhecer as origens da conceito "Cuidado", sua epistemologia, suas origens filosóficas e ontológicas. Para isso precisaremos entender que Ser é esse que é cuidado, como o Ser integra-se e interage com o Outro e com a prática que realiza para sobreviver. Esse conhecimento é importantíssimo, caso contrário, estaríamos pulando de pára-quedas no tema, e por isso, trataríamos dele com uma superficialidade que configuraria falta ética.
Por isso, o primeiro bimestre será dedicado a essas questões, para que em um segundo momento possamos falar dessas tais confrontação e emancipação do cuidado. Mais ainda, como cada profissão age ou pode agir para possibilitar a dita autonomia. E isso, caros alunos, é assunto de reflexão, pesquisa, treino e atenção. É um olhar para-Si e um olhar para-Outro que deve, como deve, fazer parte da nossa vida pessoal e da nossa prática profissional.
Finalmente, vamos estudar a saúde de quem cuida. Sabemos que o cuidador sofre porque a dor humana mobiliza medos e identificações e projeções inevitáveis. Os profissonais de saúde sofrem porque trabalham com o sofrimento humano - físico ou mental - e precisam aprender quais as melhores formas de lidar com o sofrimento do Outro.
Um bom início de semestre a todos!
O Processo de Cuidar é uma disciplina idealizada para ir além. Além do saber fazer que cada profissão engloba. É uma disciplina ofertada aos acadêmicos dos cursos da saúde: Biomedicina, Educação Física, Enfermagem, Nutrição e Psicologia. O que eles têm em comum? Todos visam a atingir algum aspecto da vida humana, essa vida tão sensível e tão mutável, que depende de tantos fatores para ser bem sucedida física, social e psicologicamente.
O objetivo principal desta disciplina pode ser traduzido em uma só palavra: Autonomia.
O profissional da área da saúde tem como público alvo sujeitos, que podem ser submetidos às práticas e a um saber inerente às profissões, o que pode fazer pensar um profissional despreparado que ele sabe mais sobre a vida do ser humano que o procura. Que grande mentira! Quando o saber cega o dever da prática é hora de revisitar conceitos e valores que permeiam a vida e o meio.
Tratar um paciente como ser humano vai além de tratá-lo com carinho, de dedicar seu tempo, seu esforço a ele. Tratar um paciente como ser humano é implicá-lo em seu problema, situá-lo frente ao que atinge a vida dele, e, pelo cuidado, ajudá-lo a conhecer, confrontar e emancipar-se da situação de subjugado. O triedro emancipatório do cuidar, proposto por Maria Raquel Gomes Maia Pires fala disso: Conhecer para cuidar melhor, Cuidar para confrontar, Cuidar para emancipar.
Vamos, então, partir do primeiro ponto: Conhecer para cuidar melhor.
Conhecer as origens da conceito "Cuidado", sua epistemologia, suas origens filosóficas e ontológicas. Para isso precisaremos entender que Ser é esse que é cuidado, como o Ser integra-se e interage com o Outro e com a prática que realiza para sobreviver. Esse conhecimento é importantíssimo, caso contrário, estaríamos pulando de pára-quedas no tema, e por isso, trataríamos dele com uma superficialidade que configuraria falta ética.
Por isso, o primeiro bimestre será dedicado a essas questões, para que em um segundo momento possamos falar dessas tais confrontação e emancipação do cuidado. Mais ainda, como cada profissão age ou pode agir para possibilitar a dita autonomia. E isso, caros alunos, é assunto de reflexão, pesquisa, treino e atenção. É um olhar para-Si e um olhar para-Outro que deve, como deve, fazer parte da nossa vida pessoal e da nossa prática profissional.
Finalmente, vamos estudar a saúde de quem cuida. Sabemos que o cuidador sofre porque a dor humana mobiliza medos e identificações e projeções inevitáveis. Os profissonais de saúde sofrem porque trabalham com o sofrimento humano - físico ou mental - e precisam aprender quais as melhores formas de lidar com o sofrimento do Outro.
Um bom início de semestre a todos!
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